Seu negócio está preparado para atender pessoas surdas? Acessibilidade começa pela comunicação
Empresas podem adotar medidas simples para tornar o atendimento mais inclusivo, como capacitação em Libras, recursos visuais, canais de comunicação por texto e conteúdos acessíveis nas redes sociais

Para uma pessoa surda, entrar em uma loja, procurar um serviço, marcar uma consulta ou tirar uma dúvida deveria ser uma experiência tão simples quanto para qualquer outro cliente. Na prática, porém, a comunicação ainda representa uma das principais barreiras encontradas por esse público.
É o que explica Malu Silva, do ceiLibras, empresa que, desde 2011, atua junto a empresas de pequeno, médio e grande porte em processos de inclusão de pessoas surdas no mercado de trabalho. Entre as atividades desenvolvidas estão cursos de Libras, treinamentos, palestras, produção de vídeos em Libras, tradução e interpretação e assessoramento em acessibilidade e inclusão.
Segundo Malu, preparar um negócio para atender pessoas surdas começa por compreender que a surdez não define a pessoa.
“A pessoa surda é, antes de tudo, uma pessoa, um cliente, um profissional e um cidadão.”
Na prática, isso significa oferecer condições para que ela possa se comunicar, receber informações e tomar decisões com autonomia. Para isso, podem ser utilizados diferentes recursos, como Libras, materiais visuais, escrita, tecnologia, vídeos acessíveis e, quando necessário, a presença de um Tradutor-Intérprete de Libras. Mas, segundo a especialista, não basta disponibilizar ferramentas: a equipe precisa saber utilizá-las e, principalmente, acolher a pessoa surda.
A comunicação ainda é uma barreira
De acordo com Malu, uma das situações mais comuns acontece quando o profissional não sabe Libras e também não procura outra maneira de estabelecer a comunicação.
Outro problema é quando o funcionário passa a conversar com o acompanhante ouvinte em vez de se dirigir diretamente à pessoa surda.
“Ela entrou ali para ser atendida como qualquer outro cliente. Ela quer conhecer o produto, tirar dúvidas, fazer escolhas e receber um bom atendimento”, explica Malu.
A especialista também chama atenção para alguns comportamentos que podem parecer tentativas de ajudar, mas não resolvem necessariamente o problema. Falar mais alto ou exagerar os movimentos da boca, por exemplo, não garante uma comunicação eficiente.
Outro ponto importante é não presumir que todas as pessoas surdas dominam o Português escrito da mesma maneira que uma pessoa ouvinte. Para muitas pessoas surdas, a Libras é a primeira língua e o Português escrito, a segunda. Por isso, dependendo da situação, pode ser necessário simplificar a informação, utilizar recursos visuais ou recorrer à Libras.
Não existe uma única forma de comunicação
Um dos principais pontos destacados por Malu é que nem toda pessoa surda se comunica da mesma maneira.
Por isso, uma atitude simples pode fazer uma grande diferença: perguntar à própria pessoa qual é a sua forma preferida de comunicação.
“Em vez de presumir que ela não entende, não fala, não lê ou precisa de um acompanhante, o profissional reconhece sua autonomia”, afirma. A partir daí, podem ser utilizados Libras, escrita, celular, imagens ou outros recursos.
Para a especialista, essa mudança de postura é fundamental: a acessibilidade começa quando deixamos de presumir e começamos a perguntar
Pequenos negócios também podem começar
A falta de estrutura ou de um intérprete permanente não precisa impedir uma empresa de iniciar um processo de acessibilidade.
Entre as medidas possíveis estão capacitar alguns funcionários em Libras básica, utilizar recursos visuais, manter canais de comunicação por texto, preparar materiais acessíveis e estabelecer procedimentos para situações que necessitem de interpretação profissional.
Em situações específicas — como entrevistas, reuniões, treinamentos ou atendimentos mais complexos — a empresa pode contratar um intérprete para aquele momento, sem necessariamente manter o profissional permanentemente.
Para uma pequena empreendedora, Malu recomenda começar observando o próprio atendimento e identificando onde existem barreiras.
Um salão de beleza, por exemplo, pode trabalhar vocabulário relacionado aos seus serviços. Um restaurante pode utilizar recursos visuais no cardápio. Em uma clínica, o cuidado com a comunicação precisa ser ainda maior. Canais de atendimento por texto também podem ajudar.
E nas redes sociais?
A acessibilidade também precisa chegar ao ambiente digital.
Nos vídeos, Malu recomenda o uso de legendas e, sempre que possível, de janela de Libras. Para informações importantes, como apresentação de serviços, campanhas, orientações e comunicados, uma alternativa é utilizar QR Codes que direcionem para vídeos em Libras.
Dessa maneira, a empresa consegue ampliar o acesso sem precisar concentrar todas as informações em uma única arte.
Mas apenas colocar legendas não resolve todas as necessidades.
Para pessoas que têm a Libras como primeira língua, um vídeo produzido em Libras pode facilitar significativamente o acesso à informação. Por isso, a recomendação é combinar diferentes recursos: Libras, legendas, textos objetivos, imagens, infográficos e QR Codes, evitando depender de uma única forma de comunicação.
Aprender Libras também significa mudar o olhar
Para Malu, aprender alguns sinais básicos pode fazer diferença no atendimento. Cumprimentar a cliente, dizer “bom dia”, “obrigado”, perguntar o nome, informar números e horários ou utilizar palavras relacionadas ao serviço são atitudes que demonstram abertura para a comunicação.
Mas, para ela, o mais importante não é simplesmente decorar sinais.
É ter disposição para se comunicar.
Ao longo da atuação junto às empresas, Malu relata ter presenciado situações de resistência à presença de pessoas surdas no ambiente profissional. Em alguns casos, segundo ela, foram criadas dificuldades para que essas pessoas acabassem deixando a empresa. Para a especialista, experiências como essas mostram que a maior barreira nem sempre está na comunicação, mas na falta de disposição para conviver com a diferença.
Inclusão não deve começar apenas quando surge uma situação
Desde 2011, o ceiLibras acompanha empresas de diferentes portes e, segundo Malu, houve avanços no interesse por capacitação, contratação e acessibilidade. Ainda assim, muitas empresas só começam a pensar no assunto quando aparece uma situação concreta — como a contratação de uma pessoa surda ou a chegada de um cliente surdo.
A proposta, portanto, é que as empresas se preparem antes que a barreira apareça.
Malu também destaca que a acessibilidade deve ser compreendida como parte da qualidade do atendimento e como responsabilidade das empresas. Ela cita a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e a legislação relacionada à inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho como parte do conjunto de direitos e obrigações que envolvem o tema.
“Comecem agora e comecem pelo atendimento”
Para os empreendedores de Bragança Paulista, a orientação de Malu é direta: não esperar uma estrutura perfeita para começar.
Capacitar a equipe, aprender Libras, criar alternativas de comunicação e buscar profissionais especializados quando necessário são alguns dos caminhos possíveis.
E, para ela, inclusão vai além do cumprimento de uma obrigação legal.
“Inclusão não acontece apenas quando a empresa contrata uma pessoa surda por obrigatoriedade descrita em Lei. Ela acontece quando a empresa muda sua cultura e sua forma de se comunicar.”
É justamente nessa mudança de perspectiva que a acessibilidade deixa de ser apenas uma adaptação e passa a fazer parte da maneira como uma empresa se relaciona com seus clientes, profissionais e com a própria comunidade.
6 atitudes para tornar seu negócio mais acessível
1. Pergunte como a pessoa prefere se comunicar.
Não faça suposições.
2. Capacite a equipe em Libras básica.
Mesmo conhecimentos iniciais podem ajudar no atendimento.
3. Mantenha canais de comunicação por texto.
WhatsApp e outros recursos podem facilitar o contato.
4. Utilize recursos visuais.
Imagens, informações objetivas e materiais acessíveis podem complementar a comunicação.
5. Coloque legendas nos vídeos.
E, quando possível, disponibilize também conteúdos em Libras.
6. Saiba quando buscar um intérprete profissional.
Situações mais complexas podem exigir tradução e interpretação especializada.




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