Mais do que café: histórias de mulheres que cultivam sonhos em Bragança Paulista

Por trás de cada xícara de café, existem histórias de escolhas, dedicação e vínculos que vão muito além da bebida. Em Bragança Paulista, mulheres que atuam na cafeicultura e no universo dos cafés especiais encontram nesse trabalho diferentes formas de expressar seus propósitos, valorizar a produção local e construir caminhos próprios.
É o caso de Teresa Montero, do Café La Bambita, que encontrou no cafezal uma conexão profunda com a terra, a natureza e o desejo de deixar um legado para as próximas gerações. Já Elda Vieira Ferraz da Silva, ao lado da esposa, Marilaura, transformou o sonho de empreender em realidade com a Aromas & Sabores Bragança e a marca Café Essência, unindo cafés especiais, criatividade e gastronomia autoral.
Duas trajetórias diferentes, mas conectadas pela paixão pelo café e pela vontade de compartilhar o que fazem. Enquanto uma história revela o afeto construído ao longo dos anos no contato com a terra, a outra mostra como a coragem de mudar de rumo pode dar origem a novos projetos e experiências.
A Conexão Elas apresenta essas histórias no contexto do 2º Festival do Café de Bragança Paulista, realizado de 9 a 12 de outubro de 2026, no Parque de Exposições Dr. Fernando Costa, o Posto de Monta. O evento reúne seis produtores locais de cafés especiais e valoriza a qualidade da produção cafeeira do município.
Mais do que conhecer os produtos, esta reportagem é um convite para conhecer as mulheres por trás das marcas, suas motivações e os caminhos que escolheram para transformar o café em parte de suas histórias.
Café La Bambita

O sonho de ter um pedaço de terra, cercado pelo verde, levou Teresa Montero a Bragança Paulista. Ela procurava um sítio para passar os fins de semana, um refúgio próximo de São Paulo, onde morava e trabalhava. Não imaginava que, naquele lugar, encontraria muito mais do que procurava: um cafezal pelo qual se apaixonaria e que, anos depois, se tornaria parte importante de sua história.
“Um dia encontrei este sítio onde hoje estou. Por acaso, não era nada do que eu tinha pensado, era simplesmente um cafezal e me apaixonei por esse cafezal”, conta Tereza, hoje com 82 anos.
A relação com a terra foi se aprofundando aos poucos. Enquanto aprendia sobre o cultivo e conhecia os produtores da vizinhança, ela também ajudava a construir uma rede de colaboração entre cafeicultores. Dessa aproximação nasceu a primeira Associação dos Cafeicultores de Bragança Paulista, iniciativa que contribuiu para fortalecer os laços entre os produtores locais.
A trajetória de Teresa com o café não se resumiu à produção. Para ela, cada propriedade carrega a personalidade de quem cuida dela. A maneira de compreender a natureza, conduzir o cultivo e tratar os frutos da terra imprime características próprias ao produto.
“Cada propriedade tem uma personalidade, porque cada propriedade tem uma pessoa que tem uma visão de mundo e uma maneira muito particular de tratar esse mundo”, explica.
Um cafezal com personalidade própria

Quando adquiriu o sítio, Teresa encontrou uma plantação com cerca de quatro mil pés de café. Naquele período, havia mão de obra, uma família que vivia na propriedade e uma cooperativa para a comercialização da produção. Durante os primeiros anos, o cafezal chegou a render dezenas de toneladas de café.
Com o passar do tempo, a estrutura que sustentava aquela atividade deixou de existir. A cooperativa encerrou as atividades, o funcionário foi embora e a plantação acabou ficando sem os cuidados de antes. Aos poucos, Teresa transformou o sítio em um lugar de acolhimento e lazer para a família.
Agora, ela vive um movimento de retorno às origens. Uma pequena plantação, com cerca de 200 pés de uma nova variedade, marca essa retomada. A proposta é cuidar do cafezal com a atenção dedicada a um jardim, respeitando as características de cada planta e as particularidades de cada safra. “É um jardim de café, um café leve, aromático, saboroso e acolhedor”, define.
Essa delicadeza também aparece na maneira como Tereza entende a bebida. Ela explica que cada safra é diferente, influenciada pelo clima, pelas chuvas, pelo manejo e pelas características dos grãos.
“O que a gente pretende é que seja o café mais natural possível”.
Sua preferência é por um café mais leve, floral e adocicado, sem uma torra muito intensa. O objetivo é preservar, tanto quanto possível, as características naturais dos grãos. A comparação que faz com o vinho ajuda a compreender sua visão: assim como as safras de uva apresentam diferenças de tonalidade, aroma e sabor, cada ano oferece ao café uma personalidade própria.
A terra como compromisso com o futuro
Teresa afirma que o trabalho com o café lhe trouxe motivação e uma nova perspectiva de futuro. Depois de uma vida inteira de trabalho e da aposentadoria, encontrou no sítio um projeto que continua despertando sua curiosidade e seu desejo de aprender.
O retorno econômico não é o principal motivo que a mantém ligada à atividade. O que a move é a possibilidade de investir no futuro, cuidar da natureza e preservar aquilo que considera valioso. No sítio, a preocupação com o meio ambiente vai além do cafezal. Teresa mantém áreas verdes, preserva a mata existente na propriedade e planta árvores. Para ela, cuidar daquele espaço também é uma forma de retribuir e deixar algo de valor para as próximas gerações.
Esse olhar também orienta seus planos. Teresa vislumbra a possibilidade de desenvolver atividades de turismo rural e educação ambiental, recebendo estudantes e visitantes para compartilhar conhecimentos sobre a natureza e a importância da preservação.
O sítio, assim, pode se tornar um espaço de aprendizagem, convivência e contato com o meio ambiente. Uma maneira de mostrar, na prática, que a terra oferece muito mais do que seus frutos: ela também ensina sobre cuidado, responsabilidade e continuidade.
Uma história que também pertence a Bragança Paulista

A relação de Teresa com o município ultrapassa os limites da propriedade rural. Jornalista de formação, com doutorado em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), ela também escreveu um livro sobre televisão pública independente e cultural e a obra Rascunhos de Vida, com crônicas e poesias pessoais.
Participa de iniciativas da comunidade, integra a Associação dos Escritores de Bragança Paulista e o Coletivo Socioambiental Bragança Paulista, além de atuar no Conselho Municipal do Agronegócio. Para ela, contribuir com a cidade é uma responsabilidade cívica.
Foi desse sentimento de pertencimento e da vontade de mostrar o valor da produção local que surgiu a ideia de realizar um festival dedicado ao café. Teresa conta que a iniciativa nasceu da percepção de que Bragança Paulista tem uma riqueza que merece ser conhecida, valorizada e preservada.
A proposta ganhou força com a união dos cafeicultores e chega à segunda edição do Festival do Café, que reúne produtores locais e aproxima o público de quem cultiva, prepara e comercializa cafés especiais no município.
É nesse encontro que a história do Café La Bambita ganha uma nova dimensão. O produto artesanal apresentado por Teresa carrega não apenas as características dos grãos, mas também a experiência de uma mulher que encontrou no cafezal um lugar de pertencimento e um motivo para continuar olhando adiante.
Ao falar sobre o que deseja deixar, ela volta à ideia de preservar esse pequeno universo para a família, especialmente para suas três filhas e seis netos.
Teresa segue cultivando café, vínculos e possibilidades. E, entre as árvores, a mata preservada e os pequenos pés de café que voltam a crescer, mantém vivo o sonho que a trouxe até aqui: ter um pedaço de terra para chamar de seu e fazer dele um lugar de vida, acolhimento e futuro.
Café Essência de Bragança Paulista

Há sonhos que amadurecem ao longo dos anos, até que chega o momento de transformá-los em realidade. Para Elda Vieira Ferraz da Silva, engenheira e especialista em Gestão de Projetos, esse momento veio depois de mais de 14 anos de atuação na indústria, quando decidiu mudar os rumos da própria trajetória e investir em uma paixão: o café.

Ao lado da esposa, Marilaura, ela deu vida à Aromas & Sabores Bragança e à marca Café Essência. Mais do que abrir um negócio, as duas encontraram uma maneira de transformar o amor pela bebida em uma experiência que envolve aromas, sabores, criatividade e valorização da cultura cafeeira de Bragança Paulista.
A decisão de empreender representou também a oportunidade de construir algo próprio, com identidade e propósito. Na Aromas & Sabores, o café não é apenas uma bebida presente na rotina dos brasileiros. É o ponto de partida para criar experiências, explorar possibilidades gastronômicas e aproximar as pessoas da riqueza dos cafés especiais produzidos na região.
A identidade de um café que nasce na região
Bragança Paulista tem uma relação histórica com a cafeicultura e vem conquistando reconhecimento pela qualidade de seus cafés especiais. Nesse cenário, a Aromas & Sabores aposta na valorização dos grãos 100% arábica e nas características que tornam os cafés da Região Bragantina singulares.
O equilíbrio entre corpo, doçura e acidez está entre os atributos que se destacam nesses cafés. As características do solo e as condições da região também contribuem para a identidade sensorial da bebida, que pode revelar diferentes nuances de aroma e sabor.
Para Elda e Marilaura, apresentar esses atributos ao público é uma forma de valorizar a produção local e ampliar o conhecimento sobre o café especial. Afinal, por trás de cada xícara existe um conjunto de características que merece ser percebido com atenção.
Essa proposta estará presente no Café Essência de Bragança Paulista, produto que as empreendedoras levarão ao 2º Festival do Café.
Uma experiência que começa no grão
Produzido com a variedade Catuaí Vermelho, o Café Essência é 100% arábica, tem colheita manual e torra média clara. O resultado é uma bebida com notas sensoriais de cacau, calda de caramelo e baunilha.
O café recebeu 84,75 pontos na escala da Specialty Coffee Association (SCA), referência internacional utilizada na avaliação sensorial de cafés especiais. A pontuação considera atributos como aroma, sabor, acidez, corpo e equilíbrio.
Mais do que apresentar números, a proposta das empreendedoras é convidar o público a descobrir as particularidades da bebida e perceber como diferentes características se combinam em cada xícara.
A escolha da torra e o cuidado com as características dos grãos fazem parte dessa experiência. Para quem está acostumado ao café do dia a dia, conhecer um café especial pode abrir novas possibilidades de percepção, revelando aromas e sabores que muitas vezes passam despercebidos.
Empreender também é abrir caminhos para outras mulheres
A trajetória de Elda e Marilaura é marcada pela construção de um negócio próprio em um setor que ainda tem forte presença masculina. Conquistar espaço, credibilidade e reconhecimento exige persistência, dedicação e disposição para enfrentar desafios.
As empreendedoras não ignoram essas dificuldades. Ao contrário, reconhecem que elas fazem parte do caminho e defendem que a presença feminina deve ser cada vez mais valorizada na cafeicultura e no empreendedorismo.
Para elas, cada etapa vencida representa não apenas uma conquista pessoal, mas também a possibilidade de inspirar outras mulheres a investirem em seus projetos.
A mensagem que orienta essa caminhada é direta: “Acreditamos que lugar de mulher é onde ela quiser estar.”
É uma convicção que se reflete na decisão de transformar um sonho em negócio, desenvolver uma identidade própria e ocupar espaço em um mercado que oferece oportunidades, mas também impõe obstáculos.
Ao construir a Aromas & Sabores Bragança, Elda e Marilaura mostram que empreender pode ser também uma forma de expressar valores, compartilhar conhecimentos e criar novas possibilidades a partir daquilo em que acreditam.
Quando o café ultrapassa a xícara

A participação no 2º Festival do Café de Bragança Paulista representa uma oportunidade de apresentar esse trabalho a um público maior e contribuir para a valorização da cultura cafeeira do município.
Mas a proposta da Aromas & Sabores não termina na bebida. A cafeteria também desenvolve uma gastronomia autoral que utiliza o café como ingrediente, explorando suas possibilidades em pratos e preparações que convidam a novas experiências sensoriais.
Nessa perspectiva, o café deixa de ocupar apenas o lugar tradicional à mesa e passa a integrar diferentes criações gastronômicas. Seus aromas e sabores podem ser combinados a outros ingredientes, ampliando as formas de apreciar um produto tão presente na cultura brasileira.
É essa visão que Elda e Marilaura desejam compartilhar com os visitantes do festival: a compreensão de que o café tem uma identidade própria, uma história ligada ao território e um potencial que vai muito além da xícara.
A Aromas & Sabores Bragança, localizada no Centro de Bragança Paulista, é a expressão desse propósito. Um negócio que reúne o desejo de empreender, o interesse pelos cafés especiais e a vontade de apresentar novas possibilidades à mesa.
Serviço
O 2º Festival do Café de Bragança Paulista será realizado de 9 a 12 de outubro de 2026, das 10h às 20h, no Parque de Exposições Dr. Fernando Costa (Posto de Monta). A entrada é gratuita. O público poderá conhecer os produtores locais, degustar e comprar cafés, acompanhar demonstrações de preparo e torra e conhecer produtos derivados do café.




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